sexta-feira, 13 de junho de 2014

No ônibus, um velho

Eu estava no ônibus, como faço todos os dias, mas dessa vez foi diferente. Eu estava mergulhada na monotonia resignada da vida cotidiana, como todos os dias, mas nesse dia algo aconteceu.
Eu não notei quando ele entrou pela porta da frente, como é direito a todo idoso. Seria só mais um passageiro, muito passageiro.
Seria, não fosse a criança já acomodada nos braços de sua mãe, alheia a toda vida que lhe espera, inexperiente. Os mais próximos olhavam a criança, o velho também, fascinados com a inocência do seu olhar perdido. Tentavam em vão tirar sua atenção de qualquer objeto brilhante, talvez um chaveiro de metal. Só de olhar o bebe, sorriam.
Eu observava o velho. Obcecada em encontrar qualquer expressão nos olhos de pele enrugada. Ele olhava pra a criança, eu olhava pra ele. Quanta vida? Quantas histórias? O que ele via naquela criança? Uma neta? Uma filha? Um arrependimento? Um rancor? Quanto eu posso ver daquele olhar cansado, calmo?
Vi quando seu rosto se deformou num sorriso indeciso e, em seguida, o cenho se franziu. Expressões ininteligíveis, dignas de uma profusão de lembranças, uns 80 anos de lembranças.
Continuei procurando qualquer vestígio de vida em seu rosto, fascinada por cada ruga e pelas histórias que elas deveriam guardar. Eu não conhecia nenhuma, não dava pra ler aquele olhar.
  As pessoas se interessavam mais pelo bebe, mas eu entendo a nostalgia. Olhar pra uma inocência perdida, que jamais será recuperada, pensar em quanto tempo ainda há de lhe restar. Só nunca entendi os sorrisos.
Eu me interessava pelo velho. Me via nele, não na criança. Pensava no que mais me aguardaria e quanto a se viver valeria alguma lembrança.
De quanto tempo eu precisaria pra aprender a aceitar as desventuras da vida? Quanta pancada ainda seria necessária pra que eu me calejasse? No final, quanto disso tudo valeria a pena? De tantas possibilidades, quantas me dariam um futuro que me desse, pelo menos, uma saudade agradável do que vivi? Quanto ao que eu acredito e defendo ferrenhamente, onde vai me levar? E o que eu conquistar? De quanto tempo vou precisar pra perder?
Eu sei que a pele enruga, eu sei que os olhos parecem fechar. São só marcas de expressão que dão ao velho essa aura triste, cansada, desistente. Mas me parece tão assustador que o tempo desenhe na cara da velhice uma expressão assim. Não consigo evitar pensar que seja um recado da vida, um pressagio que, inexoravelmente, se materializará. Um destino comum: solidão. 
Ele saltou em seu ponto, eu e a criança no colo da mãe também. Um mais perto do fim da linha, outros já nem tanto.


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