domingo, 13 de setembro de 2015

Perdidos e lembrados

Lembranças são fragmentos de memória e ilusão combinados e manejados para ser o que outrora foi momento.
Momento é o lapso do tempo que mal pode ser definido porque é de uma existência virtual.
Lembrança é uma mentira contada por nós para nós.
Momento sequer existe.

Chamamos momento de lembrança e vice-versa porque sequer conseguimos notar suas diferenças se é que elas existem.
Nessa bagunça de conceitos buscamos um no outro.
Revivemos lembranças em busca de momentos acreditando na sua autenticidade.
Os momentos não podem ser revividos e as suas lembranças pouco são confiáveis.

E isso é tudo e há de ser o bastante.

A beleza não está no que se supõe ter acontecido nem do que se guarda e sim no potencial de tudo que está por vir.
É burrice perder tempo revivendo lembranças, recriando emoções, artificializando a vida.

Futuro é todo potencial.
Presente é o que se faz com isso.

Depois é lembrança.

Quando me arrumei

Já não lembro quando fiz a última faxina nesse lugar. Vou me arrumar.
Entro em mim.
Há malas a serem desfeitas, malas de longas viagens. É muita carga pra andar por aí sustentando.
Não me lembro de ter reunido tanta coisa, eu já fui muito mais leve.
Certas viagens duram mais do que deveriam, não há mais de novo a ser visto. Nenhuma novidade que valha mais um dia sequer hospedada em qualquer expectativa.
É hora de voltar pra casa, voltar pra mim, me reencontrar.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

breve relato


Eu não ando pensativa já faz muito tempo. Aliás, já faz muito tempo que eu não ando, eu corro.
Eu costumava ser mais calma, eu costumava ter mais tempo. Ando tão ocupada que meus lutos são rápidos, uma angustia comedida, esquecida. Minhas alegrias são meios sorrisos, muito práticos, apáticos.
O franzido na testa, constante, que achou de monopolizar todas as minhas expressões. Já não há tempo de maiores reflexões. Uma informação seguida da outra reprimiu meus devaneios. Agilidade, agilidade. Deixo tudo pela metade.
Em meio a esse turbilhão de novidades, sobre nada me aprofundei.
Quando foi que me mecanizaram?
Eu sinto falta de ler tirinhas, de tentar entender os homens e de observar meu gato.
Quando acordo de manhã as horas do meu dia estão contadas e reflexões não foram previstas no meu tempo diário.
Eu sinto falta de manter diálogos longos, de desenvolver teorias sobre os relacionamentos humanos e as bordas do espaço.
Tudo que produzo esta incompleto e foi reduzido.
Eu que sempre gostei de escrever já não completo um pensamento.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Especialista em ser forte

Ao longo da vida nos calejamos. A eterna sucessão de frustrações a que se submete todo aquele que se dispõe, simplesmente vivendo, nos machuca repetidas vezes. Depois de tanto sofrimento a gente pode endurecer, calejar. Para nos protegermos de tanto nocaute resolvemos parar de subir no octógono. Se amar é sofrer, chega de amar. "Se tu soubesses como machuca não amaria mais ninguém".
Aí até nos envolvemos, mas sempre superficialmente, sempre raso. Não nos entrelaçamos mais verdadeira e profundamente. À primeira centelha de amor, acordamos no meio da noite, saímos do enlace e pegamos um táxi pra solidão do nosso próprio quarto.
Não ligamos, não dizemos que amamos. Somos especializados em ser fortes, especializados em esquecer, em sofrer o minimo possível.
Uma, duas, três, dez primaveras e estamos seguros e secos.
Só.
Muito só.
Cabe agora procurar uma opção segura pra minhas inseguranças, a idade ideal, a profissão ideal, o estilo de vida ideal, alguém que se encaixe nos pre-requisitos da minha vida tépida.
Se suspirar, deslizo pra fora desse laço, esse não me serve.
Achei! Oco, vazio, não me tira do chão, não me faz levitar, não me faz embrulhar as entranhas, não me faz sentir vulnerável. Perfeito.
Uma vida de conveniências, muito adequado.
Uma, duas, três, dez primaveras.

Já não há mais o que perder.

Velhos e seguros pensando em tudo que poderia ter sido, em tudo que não foi vivido, lamentando cada lagrima não chorada, cada sofrimento, cada sensação, cada sentimento que faz a caminhada táctil, desde o fundo da alma, guardada tão segura que morre sufocada.