quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Bom rapaz

Eu sinto, mas só eu, ninguém mais. 
Eu sou complexo, incontáveis variáveis me influenciam, nem sempre ajo como penso e como penso nem sempre me define. Eu entendo meus dilemas, aceito minhas contradições, respeito meus defeitos, relevo meus impulsos, mas não os das outras pessoas. 
É tão difícil entender que todo mundo é feito da mesma substância? Quando perceber que você erra, entenda que as outras pessoas também. Quando estiver confuso, entenda que essa sensação não é privilégio seu.
Você se debruça em tentar se entender, se bate em teses e muda o tempo todo. Então, com que clarividência pode definir o caráter de todos que te rodeiam, se, sequer, consegue entender a si mesmo?
Seres humanos são complexos em suas particularidades. 
É muito mais fácil olhar pra si, compreender sua versão da história, analisar seus sentimentos, justificar seus erros, se perdoar. Difícil é se colocar na outra pele, compreender as dores e erros alheios, perdoar o outro.
Não é pra qualquer um admitir a culpa, se responsabilizar pelos danos. É mais confortável que haja um vilão na história que não seja você.
Tudo bem, é fraqueza, acontece, mas se der, seja honesto consigo mesmo e justo com todo mundo. Fazer do outro o grande monstro da lagoa para sua consolação é egoísta e cruel.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Museu de nostalgias

O passado é o mais inerte estado do tempo. Inflexível, se enrijece na sua condição indissolúvel do que foi e do que jamais será. O passado só em ser imutável é inegociável. Dele só abstraímos lembranças deturpadas. É, na verdade, um velho rabugento, extremamente teimoso, mas por quem temos uma obsessão cega.
Revisitamos o passado incontáveis vezes, isso porque o passado é, também, suscetível a adornos. Exatamente por ser imutável, nos dá a segurança de manipular suas realidades, tornando tudo mais digerível.
Não há homem mais nobre do que o que está morto. Não há amor maior do que aquele que acabou. Nossas vidas são quase sempre tão secas que cabe ao nosso passado e ao recurso da imaginação dar cor a tudo.
Somos viciados em nostalgia, amores falidos, esperando tudo passar pra que então se torne perfeito e irrecuperável o que outrora era real, presente, humano e, logo, falho. A magia da idealização está inalcançabilidade das coisas.
E vivemos de passado, cultuamos a melancolia, sentimos pelo que perdemos, perdendo sempre, cada vez mais, tudo que passa por nós.
Olhando pra dentro, minha história é um vão de muitos quadros, todos mal pintados. Quando prontos, cuidadosamente emoldurados e constantemente admirados. Mas há quadros sendo produzidos o tempo todo, um a repercussão do outro, numa sucessão infinita da mesma imagem espelhada. Não tenho pintado nada novo, só decalcado imagens antigas, hora azul turquesa, hora anil., sempre azul. O mesmo pincel, vetor das mesmas tintas do que se pinta. Um amontoado de historias parecidas, as quais por algum motivo me agarrei.
Não mais.
Cansei dos museus, cansei de relíquias velhas de desventuras antigas. Cansei do aspecto opaco do que está envelhecido.
Há por vir uma tela branca, todos os dias.