terça-feira, 14 de outubro de 2014

Museu de nostalgias

O passado é o mais inerte estado do tempo. Inflexível, se enrijece na sua condição indissolúvel do que foi e do que jamais será. O passado só em ser imutável é inegociável. Dele só abstraímos lembranças deturpadas. É, na verdade, um velho rabugento, extremamente teimoso, mas por quem temos uma obsessão cega.
Revisitamos o passado incontáveis vezes, isso porque o passado é, também, suscetível a adornos. Exatamente por ser imutável, nos dá a segurança de manipular suas realidades, tornando tudo mais digerível.
Não há homem mais nobre do que o que está morto. Não há amor maior do que aquele que acabou. Nossas vidas são quase sempre tão secas que cabe ao nosso passado e ao recurso da imaginação dar cor a tudo.
Somos viciados em nostalgia, amores falidos, esperando tudo passar pra que então se torne perfeito e irrecuperável o que outrora era real, presente, humano e, logo, falho. A magia da idealização está inalcançabilidade das coisas.
E vivemos de passado, cultuamos a melancolia, sentimos pelo que perdemos, perdendo sempre, cada vez mais, tudo que passa por nós.
Olhando pra dentro, minha história é um vão de muitos quadros, todos mal pintados. Quando prontos, cuidadosamente emoldurados e constantemente admirados. Mas há quadros sendo produzidos o tempo todo, um a repercussão do outro, numa sucessão infinita da mesma imagem espelhada. Não tenho pintado nada novo, só decalcado imagens antigas, hora azul turquesa, hora anil., sempre azul. O mesmo pincel, vetor das mesmas tintas do que se pinta. Um amontoado de historias parecidas, as quais por algum motivo me agarrei.
Não mais.
Cansei dos museus, cansei de relíquias velhas de desventuras antigas. Cansei do aspecto opaco do que está envelhecido.
Há por vir uma tela branca, todos os dias.

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