domingo, 4 de janeiro de 2015

Especialista em ser forte

Ao longo da vida nos calejamos. A eterna sucessão de frustrações a que se submete todo aquele que se dispõe, simplesmente vivendo, nos machuca repetidas vezes. Depois de tanto sofrimento a gente pode endurecer, calejar. Para nos protegermos de tanto nocaute resolvemos parar de subir no octógono. Se amar é sofrer, chega de amar. "Se tu soubesses como machuca não amaria mais ninguém".
Aí até nos envolvemos, mas sempre superficialmente, sempre raso. Não nos entrelaçamos mais verdadeira e profundamente. À primeira centelha de amor, acordamos no meio da noite, saímos do enlace e pegamos um táxi pra solidão do nosso próprio quarto.
Não ligamos, não dizemos que amamos. Somos especializados em ser fortes, especializados em esquecer, em sofrer o minimo possível.
Uma, duas, três, dez primaveras e estamos seguros e secos.
Só.
Muito só.
Cabe agora procurar uma opção segura pra minhas inseguranças, a idade ideal, a profissão ideal, o estilo de vida ideal, alguém que se encaixe nos pre-requisitos da minha vida tépida.
Se suspirar, deslizo pra fora desse laço, esse não me serve.
Achei! Oco, vazio, não me tira do chão, não me faz levitar, não me faz embrulhar as entranhas, não me faz sentir vulnerável. Perfeito.
Uma vida de conveniências, muito adequado.
Uma, duas, três, dez primaveras.

Já não há mais o que perder.

Velhos e seguros pensando em tudo que poderia ter sido, em tudo que não foi vivido, lamentando cada lagrima não chorada, cada sofrimento, cada sensação, cada sentimento que faz a caminhada táctil, desde o fundo da alma, guardada tão segura que morre sufocada.
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário