Um homem em seu leito de morte, moribundo. Esperava a única certeza clichê da vida, ceifaria ali qualquer vestígio de sua existência. Esperava.
Sabia da vinda da morte, não tinha mais que 5 dias, poucas lembranças, muitos desafetos e um tumor inoperável (células estúpidas) que encurtariam-lhe a vida.
Não tinha recebido visitas, exceto da menina que mantinha como sua empregada, cujas humilhações a que se submetera só foram superadas em prol de sua religiosidade. Foi fazer uma oração pela alma do semi-morto, aprendera no culto a rezar pelos que menos mereciam.
Morreria o homem deixando herdeiros de sua amargura e nenhuma saudade.
Sobre a extensão de sua vida não há muito o que se relatar, nada que valha nosso tempo. Nenhuma poesia, história de amor ou ato heroico.
Era, na verdade, nosso personagem um velho ranzinza desde muito novo. Egoísta, mal educado, desprovido de qualquer moral cristã. Não economizava impropérios aos vizinhos e era mestre em bisbilhotar a vida alheia. Sua vida de tão patética era preenchida pela vida de qualquer um a quem pudesse agredir.
Criticava a filha do dono do bar que, muito feia, arrumava semanalmente um pretendente interessado nos lucros do negocio do seu pai. Chamava de viado seu vizinho mais próximo e de baranga a mulher do seu irmão.
Seus filhos, assim que puderam se libertar do vinculo financeiro, arquitetaram novas vidas, mais decentes, onde o pai não era bem vindo.
Melhor mesmo era que morresse. E ia, dentro de algumas horas.
Na monotonia do quarto de hospital, deu-se o homem a pensar na vida. Questionou valores, reconsiderou certas posições. Reviveu seus anos já vividos. Como seria se fosse ele diferente? Pensou. Imaginou outros caminhos, outras relações.
Refutou as hipóteses: "Tivesse eu sido cínico como todos são, estaria agora cercado de olhares falsos, flores baratas e lamentos fingidos. Melhor morrer sozinho do que na companhia dessa corja."
Morreu algumas horas depois, com a boca torta e o cenho franzido só pra estragar o velório.
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