segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Torta de chocolate com morangos.

Torta de chocolate com morangos, minha preferida. Nada me apetece mais do que uma torta de morangos com muito chocolate. Ela se vangloria de ser tão atraente.
Passei na frente da loja de doces durante dias, em nenhum dia sequer me escapou ao olhar tão atrativa guloseima. Desejava. Me parece que desejar é mais deleitoso que saciar-se em si. Foram dias de uma tortura aprazível.
Um dia entrei na loja e comprei a torta (as circunstancias não são irrelevantes. Afinal, a gula, tanto quanto a luxuria, é um pecado a qual se cede em sigilo). Cedi.
Resolvi que comeria em casa. A viagem seria a outra parte do sádico ritual de contemplar e satisfazer.
Talheres na mesa, a torta e eu.
Tremia eu de fome ou ansiedade?
Sem muita condescendência, passei o dedo sobre a cobertura dulcíssima e degustei o que deve ser a melhor parte de qualquer um: a apresentação. Delicioso. Um convite à voracidade do desejo descomedido.
Extasiada pela promessa de uma sápida refeição, me muni das ferramentas necessárias e cortei um pedaço da tentadora torta de chocolate com morangos.
Devo deixar claro, para o que se segue, que por mais idealizada que possa ser uma torta, eu aceitaria, com o entendimento maduro das imperfeições da vida, alguns morangos um pouco maduros demais, quase podres até. Entretanto, o que profanou o que deveria ser um momento de descobrimento e prazer era, em absoluto, intragável.
Antes do óbvio, observei o que tinha à minha frente. Havia, então, em meio à doçura, um problema: havia um fio de cabelo ou uma barata (tanto quanto a torta de chocolate com morangos fica ao seu paladar o que te parecer mais repugnante).
Sob certo ângulo, sob certa ótica, ainda era uma torta de chocolate com morango, mas pra olhares mais desatentos, pessoas que não olham pro recheio do que comem. Eu não podia ignorar o que via. Simplesmente não dava pra engolir.
Particularidades aqui ou ali quanto a gostos e princípios, não há de se negar o me viria: frustração, aquele sentimento que nos traz lamentações sobre o que poderia ter sido e não foi.
Eu sabia o que deveria fazer, joguei fora toda a torta, por mais difícil que seja, eu sabia que deveria ser feito.
Ainda me pego frustrada, mas tenho entendido melhor destas coisas: do que tem todo o potencial e só.

A torta e sua exiguidade. Finge ser um uma iguaria divina, um poço de interminável sabor. Isso é aparente grandeza das coisas em chocolate, discursos e letras.

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